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| Sepé Tiarajú |
A LENDA
Ficou decidido pelo Tratado de Madri, que a Espanha trocaria com Portugal sua possessão conhecida por Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento. Milhares de índios guaranis, catequizados e civilizados pelos jesuítas espanhóis, habitavam as Missões. Mas, conforme regia o tratado os habitantes das Missões deveriam deixar suas terras e mudar-se para o território pertencente aos espanhóis. Acontece que o prazo da mudança era muito curto e, os índios descontentes, não iriam ter tempo suficiente para realizar tal feito. Os jesuítas interferiram e obtêm um prazo maior. Mas neste momento surge Sepé Tiarajú, um índio jovem, muito forte e admirado por todos, que possuía uma namorada chamada Jussara. Certa manhã, ao acordar, correu até Sepé para relatar que tivera um sonho no qual um anjo lhe dissera que grandes sofrimento estariam por vir.
Um jesuíta, chamado Padre Balda, ouviu tal conversa e procurou acalmá-los e fazê-los esquecer o mau presságio. Logo em seguida chega a ordem para desocuparem as terras e as tropas espanholas e portuguesas encontravam-se por perto para cumprirem tais ordens. O jesuíta, dirigiu-se aos índios, tentando persuadi-los: - De nada adiantará uma revolta, meus filhos. Apenas daremos às tropas motivo para atacar-nos. Vamos em paz e reconstruiremos nossa cidade e nossas lavouras.
Sepé então desculpou-se com o jesuíta, mas prometeu oferecer defensiva. Não permitiria que seu povo entregassem aos portugueses o fruto de tantos anos de trabalho. No dia seguinte reuniu seus guerreiros e partiu a cavalo ao encontro do inimigo.
Jussara desesperou-lhe, mas nada mais poderia ser feito.
No acampamento português, Sepé foi feito prisioneiro e arrastado à presença do general lusitano. Mandaram o bravo índio beijar a mão do general e ele recusou-se:
- Ninguém me obrigará a beijar a mão de outro homem. Depois sou eu o dono destas terra que tentam tomar.
O general português riu-se:
- Você é apenas um pobre bárbaro, mais nada.
Os olhos de Sepé estavam incendiados de raiva quando respondeu:
- Bárbaro? Tu é que pretendes arrancar a terra de seu dono e eu luto em defesa de meu povo. Quem é afinal, o bárbaro aqui?
Quando o general percebeu que não conseguiria nada por mal, resolveu mudar de tática e fingiu-se de amigo tentando obter a informação de onde estavam escondidos os cavalos de seus guerreiros para que pudesse apossar-se deles e deixar o inimigo sem meio de ataque. Nem uma palavra foi dita pelo índio, que muito ágil ainda conseguiu escapar.
Ao retornar às Missões, o povo vibrou de alegria. Sepé revelou o conteúdo da sua conversa com o general português e admitiu que agora odiava mais do que nunca o inimigo. O jesuíta percebendo a agitação que dominava o índio pediu que ele descansasse, acreditando que algumas horas de sono abrandasse sua revolta. Sepé obedeceu, exausto como se encontrava, o ódio cedeu ao sono e ele adormeceu.
Alguns dias mais tarde como os índios não tinham deixado as Missões e o prazo se esgotara, as tropas portuguesas aguardavam a chegada das tropas espanholas para juntas expulsarem os desobedientes. Mas, depois de algum tempo chegou um informe notificando-lhes que os espanhóis ainda demorariam para lá chegar. O chefe português foi então obrigado a recuar e voltar para permanecerem aquartelados. Quando tal notícia chegou as Missões, o povo interpretou a retirada do inimigo como uma derrota e a alegria foi imensa. Mas, como tudo que é bom dura pouco, um mês depois um grito ecoou e transformou imediatamente o ânimo daquela gente:
- Vamos ser atacados!
Chegavam os portugueses e espanhóis juntos. São Sepé assume a chefia de seu povo e correm para preparar-se para guerra que se aproximava. Sepé despede-se de Jussara e parte com seus guerreiros.
Os índios defenderam-se bravamente. As balas de seus oponentes eram respondidas com suas flechas. Caem homens dos dois lados. Brancos e índios confundiam-se no ardor da peleja. Tal coragem frente a tão possantes armas surpreendiam o inimigo. Mas estes últimos também eram mais inteligentes e percebem que o coração da batalha era Sepé. Resolvem então concentrar-se nele. Aos punhados, cercam-o e o acirrado combate prossegue e Sepé é atingido. Ele agarra-se ao pescoço de seu cavalo num esforço para não cair. O índio tenta resistir, mas fogem-lhe as forças. Tudo escurece e seu corpo cai ao solo. Um soldado o persegue, aponta-lhe a arma e atira.
Sepé está morto! Deixou de existir o defensor dos povos das Missões.
A luta no campo prossegue e um a um os índios caem feridos. A terra cobre-se de sangue. Entre os milhares de corpos dos indígenas, estão inúmeros jesuítas, mortos quando tentavam proteger os nativos.
O manto da noite cobre a cidade abandonada e silenciosa, tornando-a triste. Ninguém acreditaria que ali vivera um povo alegre e laborioso.
Tudo estava terminado.
Aqui no extremo sul do Brasil, Sepé Tiarajú é o símbolo da resistência e do instinto de liberdade de um povo. Ele foi um típico herói missioneiro que passou para o folclore gaúcho como santo. Depois de 13 anos de sua morte, o poeta Basílio da Gama, escreveu o poema épico da literatura brasileira, "O Uraguay", intuindo um carisma todo especial à Sepé, quando descreve sua subida aos céus. Ele foi também, a fonte de inspiração do escritor Alehy Cheiche que o homenageou em "Romance dos Sete Povos das Missões". Sua vida e obra recentemente, materializou-se no filme "A Missão" com a participação do conhecido ator Robert de Niro.
No Rio Grande do Sul há um rio e um município com seu nome. Há também, muitas entidades tradicionalistas que homenageiam este índio-santo e em Santo Angelo vislumbra-se uma estátua sua no centro da cidade.
Em 1983, as Ruínas de São Miguel Arcanjo foram tombadas pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade, o único no Rio Grande do Sul. Hoje as Reduções são pontos turísticos visitados por pessoas do mundo inteiro. Integram o Circuito Internacional das Missões Jesuíticas, criado em 1994 e lançado pela UNESCO em 1997, em Havana, como o quarto Roteiro Turístico em nível mundial.
Eu tive a sorte de crescer brincado nos mesmos campos onde outrora viveu Sepé Tiarajú e respirar o ar impregnado de sua história e heróicos feitos. Sua imponente figura sempre povoou meus sonhos de menina, enquanto pulava de degrau em degrau as escadarias das Ruínas de São Miguel.
"ESTA TERRA TEM DONO..", que este grito de guerra de Sepé Tiarajú encontre eco em outros brados, outras lutas, agora que nos encaminhamos para novos tempos. É hora de cultivarmos mais amor pela nossa terra e nossa gente, para que nossas façanhas possam também serem lembradas e talvez, quem sabe, servirem de modelo para todo o mundo.



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